quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Entrevista a António Saraiva

António Saraiva, ainda no exercício do cargo de Presidente da Direcção da AIMMAP, concedeu uma derradeira entrevista à revista “TecnoMetal”, publicada na edição n.º 185.

Tendo em conta a importância e o simbolismo da entrevista, publica-se nas linhas subsequentes o respectivo texto, na sua íntegra.

"TECNOMETAL ENTREVISTA ANTÓNIO SARAIVA, PRESIDENTE DA DIRECÇÃO DA AIMMAP

TM: Num momento em que se prepara para assumir o cargo de Presidente da Direcção da CIP, que balanço faz de 6 anos como Presidente da Direcção da AIMMAP?
AS: Sem falsas modéstias e com toda a humildade de quem entende que é sempre possível fazer-se melhor, faço um balanço altamente positivo. Do ponto de vista interno, a AIMMAP está hoje totalmente equilibrada a todos os níveis. Não só em termos organizacionais e administrativos como também no domínio económico e financeiro.Por outro lado, existe um reconhecimento claro por parte dos associados de que a AIMMAP tem defendido os seus interesses de uma forma eficaz e assertiva. Recebo permanentemente indicações dos próprios sócios nesse sentido. Alargámos e aperfeiçoámos o leque dos nossos serviços, melhorámos significativamente a nossa capacidade de comunicação e evoluímos substancialmente na qualidade das nossas intervenções. A AIMMAP é hoje encarada por todos os agentes como uma entidade altamente dinâmica e competente. Devo aliás sublinhar que entendo que o convite que insistentemente me foi formulado no sentido de me candidatar a Presidente da CIP é também de algum modo o reflexo do excelente trabalho de toda uma equipa que tive o privilégio de liderar na AIMMAP.Actualmente, a AIMMAP é uma associação forte que sabe muito bem o que quer. E estou totalmente seguro de que a respectiva Presidência ficará muitíssimo bem entregue, com a assunção de tal cargo pelo meu colega de Direcção e Amigo Aníbal Campos, um industrial de referência no sector e um grande conhecedor do associativismo.

TM: Em seu entendimento, quais as principais marcas dos seus mandatos como Presidente da Direcção da AIMMAP?
AS
: Avaliações em causa própria são sempre muito discutíveis. Não sei se são marcas, mas tenho pelo menos um grande orgulho em ter contribuído nos meus mandatos para o cumprimento de resultados importantes.O primeiro ponto nesse âmbito é para mim a disseminação e a consolidação de uma estratégia para o sector que é hoje reconhecida aos mais diversos níveis. Apostámos decisivamente na mensagem de que as empresas deste sector devem investir na excelência e na diferenciação. Estou certo de que com essa aposta ajudámos a mudar o paradigma do sector, o qual é hoje reconhecido como decisivo para o futuro da indústria portuguesa.Quanto a trabalhos efectuados, há muitos pontos que gostaria de sublinhar. Para além da reestruturação e do saneamento financeiro da associação, que foi tarefa da maior importância.Constituímos a FELUGA, entidade que agrega as empresas metalúrgicas e metalomecânicas de Portugal e da Galiza e que vai paulatinamente desenvolvendo o seu caminho em prol do sector.Assumimos a Presidência da CERTIF, contribuindo activamente para que a mesma seja hoje uma marca de referência na certificação em Portugal, tendo inclusivamente ampliado o seu âmbito de actividade.Somos um dos principais promotores do PRODUTECH, o pólo tecnológico dos produtores de bens de equipamentos. Aliás fomos sócios fundadores da associação com o mesmo nome que tem a incumbência de gerir o referido pólo – a qual tem a sua sede nas instalações da AIMMAP. Ajudámos directamente centenas de empresas do sector nos seus processos de internacionalização, nomeadamente através da apresentação de sucessivos projectos de financiamento aos diversos quadros comunitários de apoio.Na área da propriedade industrial, promovemos o GAPI que melhores resultados obteve. Conseguimos finalmente a concretização de um objectivo de décadas, através da caducidade dos contratos colectivos de trabalho totalmente desactualizados com que as nossas empresas tinham de confrontar-se na gestão dos seus recursos humanos.Temos uma intervenção mais activa no CATIM, o qual por seu turno revela uma crescente excelência.Conduzimos a que a AIMMAP tivesse uma intervenção crescente na CIP.Cumprimos um objectivo também muito antigo, tendo dinamizado a actividade de todas as Divisões da AIMMAP, as quais são actualmente a verdadeira alma da associação, conforme aliás era nosso desejo.Reformulámos totalmente o nosso boletim informativo “Metal”, o qual convertemos num verdadeiro jornal, com muito maior difusão e conteúdos muito mais ricos.Reestruturámos igualmente a revista “TecnoMetal”, melhorando significativamente a sua qualidade aos mais diversos níveis.Criámos um novo site e dois blogues. E passámos a assegurar uma presença constante na comunicação social, através de artigos de opinião, reportagens ou entrevistas aos responsáveis da associação.Julgo que as iniciativas levadas a efeito no âmbito do programa de comemorações do 50º aniversário da AIMMAP foram também altamente marcantes. Dignificámos de forma especial a associação e o próprio sector. E também a comemoração do 30º aniversário da “TecnoMetal” foi um momento simbólico de grande relevância.Ainda neste momento preciso, há duas iniciativas em curso que me parecem da maior importância. A primeira delas é a realização de um estudo global sobre o sector metalúrgico e metalomecânico, o qual está já em curso e terá consequências muito importantes no sentido de uma maior afirmação do sector no contexto da economia e da sociedade civil portuguesas. A segunda, consubstancia-se no sucesso dos nossos esforços tendo em vista a salvação da actividade desenvolvida pela AFTEM no domínio do ensino tecnológico. Em articulação com a ANEMM e o próprio Estado português, criámos as condições para que as escolas tecnológicas da AFTEM possam ser absorvidas pelo CENFIM.Estes são, entre muitos outros, alguns pontos fortes destes dois mandatos. Devo no entanto sublinhar que aquilo que maior satisfação me deu foram claramente as causas em que nos envolvemos permanentemente em defesa dos interesses do sector e das nossas empresas. Umas vezes com mais sucesso, outras com resultados menos visíveis, o saldo foi quase sempre muito positivo. E foi seguramente esse bom trabalho que conduziu a que a AIMMAP seja hoje encarada como uma associação de referência.

TM: Entende que terá ficado alguma coisa por fazer, naquilo que eram os seus principais objectivos na AIMMAP?
AS: Quando se deixa um cargo, julgo que se fica sempre com a noção de que num momento ou noutro se poderia ter feito mais. Independentemente desse tipo de reflexões e de considerar que o saldo é muito positivo, vou ficar com uma mágoa, que é a de não ter sido possível que o associativismo neste sector tenha passado a falar a uma só voz. Gostaria de ter contribuído para a fusão entre a AIMMAP e a ANEMM. Infelizmente, nesse domínio não conseguimos concretizar os nossos objectivos. Continuo no entanto convencido de que isso será uma inevitabilidade.

TM: Como está actualmente o sector metalúrgico e metalomecânico?
AS: Este sector é muito heterogéneo, sendo por isso muito difícil fazer um diagnóstico global objectivo. Há subsectores em melhor situação do que outros.Em todo o caso, independentemente das diferenças e especificidades de cada subsector, penso ser pacífico o entendimento de que o sector, na sua generalidade, se pauta cada vez mais por critérios de excelência. É criador líquido de emprego, contribui de forma decisiva para as exportações nacionais e continua a gerar investimento. Assim sendo, criando postos de trabalho e gerando riqueza, penso que é um sector que deve ser reconhecido e acarinhado.

TM: Com que estado de espírito encara a sua previsível eleição para o cargo de Presidente da Direcção da CIP?
AS: Com o entusiasmo de quem se propõe tentar mudar as coisas para melhor e com o sentido de responsabilidade que o cargo impõe. Não estava nas minhas expectativas ser Presidente da CIP. E devo confessar que resisti insistentemente ao desafio que me foi feito nesse sentido.Porém, agora que a candidatura está concretizada, irei procurar contribuir para dignificar o associativismo, a indústria, as empresas, os empresários e o país.

TM: Como espera que esteja a CIP daqui a 3 anos?
AS: Desejo e espero que esteja mais forte, mais coesa e mais interventiva a todos os níveis.Tenho como objectivo imediato a criação de condições para que as associações que ainda não estão filiadas na CIP o venham a estar muito em breve.A CIP é uma instituição de referência em Portugal. O país, a democracia e a economia de mercado devem-lhe muito. Pelo que é importante que isso seja permanentemente sublinhado.Em termos práticos, procuraremos que daqui a 3 anos a CIP tenha mais associados, tenha mais receitas que lhe permitam fazer mais e melhor, comunique melhor com o exterior e seja respeitada pela sociedade civil como uma instituição que luta empenhadamente pelas causas que adopta.

TM: Quanto à reorganização do movimento associativo empresarial de que tanto se fala, quais serão as prioridades do seu mandato na CIP?
AS: Entendo que a CIP é a legítima representante da indústria e que esse é um pressuposto de que não poderemos abdicar. O nosso objectivo será o de atrair mais associações para o interior da CIP. E essa será assim a matriz da reorganização associativa no que se refere à indústria.Em termos mais globais, procuraremos conseguir uma maior articulação com as restantes Confederações. Com efeito, há matérias com um cariz estratégico para o país que não podem nem devem ser assumidas isoladamente por cada Confederação. Pelo contrário, entendo que devem ser sustentadas a uma só voz por todo o movimento associativismo patronal. São os casos, nomeadamente, da Justiça, da Legislação Laboral, da Fiscalidade ou da Energia.Nessas matérias terá de ser potenciada a tal voz única patronal. Só assim poderemos ser assertivos na defesa das nossas causas comuns.Como forma de materializar esse voz única, já defendi publicamente a eventual criação de um Agrupamento Complementar de Empresas – ou de uma estrutura idêntica -, que agregue todas as Confederações em pé de igualdade.É uma ideia que estamos ainda a avaliar com rigor. Mas o modelo jurídico não é por si só importante. O que conta verdadeiramente é a substância. E quanto a isso temos ideias muito claras."

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Balanço e agradecimento

No editorial da edição n.º 185 da revista “TecnoMetal”, António Saraiva fez um balanço da evolução da revista ao longo dos anos em que assumiu o cargo de Presidente da Direcção da AIMMAP e de Director da publicação em causa.

Para além disso, António Saraiva fez questão de manifestar o seu reconhecimento aos sócios e aos colaboradores da AIMMAP pelo apoio que sempre lhe concederam.

Nas linhas subsequentes deste blogue insere-se o texto correspondente ao editorial em causa.

"Uma palavra de reconhecimento

Enquanto Presidente da Direcção da AIMMAP ao longo destes últimos quase seis anos tive a honra de assumir também a responsabilidade pela Direcção desta revista.
Foi para mim um privilégio ter o meu nome associado a uma revista que é verdadeiramente uma referência de qualidade e excelência no respectivo segmento editorial.
E foi igualmente um gosto muito grande o de, durante este período em que fui Director da revista, ter ajudado a “Tecnometal” a assumir novos desafios que a engrandeceram ainda mais.
Ao longo destes meus mandatos, a “Tecnometal” teve a capacidade de evoluir de uma forma simultaneamente tranquila e significativa.
Foi criado um Conselho Técnico e Científico com o objectivo de ajudar a enriquecer os conteúdos e de potenciar a inovação. Reformulou-se e melhorou-se a imagem e a estética. Foram modificados os traços editoriais de uma forma que mereceu a adesão plena dos leitores. Criou-se um blogue específico da “Tecnometal”. Levou-se a efeito uma sessão comemorativa do 30º aniversário. Foi criado o “Prémio Tecnometal” no intuito de honrar os melhores artigos. E fundamentalmente conseguiu salvaguardar-se e consolidar-se a liderança no respectivo segmento de mercado.
Tudo isto foi feito com uma gestão económica e financeira equilibrada, tendo sido aliás criadas as condições necessárias para que a exploração da “Tecnometal” não seja causa de constrangimentos para as contas da AIMMAP.
Irei agora assumir um novo desafio, ao assumir as funções de Presidente da Direcção da CIP.
O exercício de tal cargo é naturalmente incompatível com a Presidência da Direcção da AIMMAP e a Direcção da “Tecnometal”.
Este será pois o meu último editorial nesta revista. Pelo que quero agradecer a todos os colaboradores da “Tecnometal” e muito particularmente ao seu Director Técnico-Científico, Hermenegildo Pereira, o empenho e a competência com que ajudaram a recriar e fazer evoluir esta revista. Quero agradecer também a todos os leitores a atenção com que sempre nos brindaram. E quero acima de tudo agradecer às empresas filiadas na AIMMAP a confiança que em mim depositaram para a assunção de tantos desafios que tive o privilégio de protagonizar.
A todos, pois, o meu sincero reconhecimento.
António Saraiva
Presidente da Direcção da AIMMAP"

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Guerra do poder político ao empreendedorismo

No editorial da edição n.º 184 da revista “TecnoMetal”, o Presidente da Direcção da AIMMAP denunciou uma vez mais os verdadeiros ataques que o poder político desenvolveu recentemente contra as empresas e o empreendedorismo, através da publicação de um conjunto vastíssimo de diplomas legais com incidências negativas aos mais diversos níveis.

Considerando a importância do assunto, insere-se neste blogue o texto correspondente ao editorial em causa.

"Asfixia aos empreendedores

Independentemente de eleições, campanhas eleitorais ou juramentos de fé em contrário, o poder político continua verdadeiramente imparável no processo de estrangulamento do empreendedorismo.
O passado mês de Setembro, no qual teve lugar uma aguerrida e praticamente inconsequente campanha eleitoral, foi infelizmente caracterizado pela publicação de um alargado conjunto de diplomas nesse lamentável sentido.
Ao mesmo tempo em que se apregoava ser fundamental estimular-se a capacidade empreendedora dos portugueses para se poder fazer face às dificuldades da economia nacional, o legislador não tinha o menor pejo em tornar cada vez mais difícil a vida das empresas.
Nesse contexto, através de vários diplomas distintos, para além de outras dificuldades criadas, agravou os custos salariais das empresas, dificultou a celebração de acordos de cessação de contratos de trabalho, tributou em sede de IRS e IRC as verbas pagas a gerentes e administradores na sequência da cessação dos respectivos mandatos, restringiu fortemente os direitos dos empregadores no âmbito de recursos de impugnação das sanções aplicadas por autoridades administrativas e propiciou a interferência dos sindicatos na vida das empresas.
Não acredito que os nossos governantes e deputados sejam ingénuos. Pelo que só posso concluir que se trata aqui de um ataque premeditado às empresas.
Se alguém apregoa que esta ofensiva estimula o empreendedorismo, ou é irresponsável ou está de má fé.
As alterações legais acima enunciadas têm, todas elas, um único fio condutor: penalizam objectivamente as empresas. Pelo que são todas censuráveis por igual.
Há ainda assim uma matéria que, pelo seu simbolismo, merece uma especial reflexão.
Com efeito, em consequência da já referida alteração ao Código do IRS, a partir de agora, sempre que ocorra a cessação de funções de um gestor, administrador ou gerente de pessoa colectiva, as importâncias pelos mesmos auferidas, a qualquer título, ficam sempre sujeitas a tributação em sede de IRS pela sua totalidade.
Antes da entrada em vigor de tal disposição, as verbas pagas a tais dirigentes em consequência da cessação dos respectivos mandatos – nomeadamente por renúncia, destituição ou acordo –, estavam isentas de IRS. A partir de agora, porém, passam a ser tributadas nesse âmbito pela sua totalidade.
Aparentemente, esta seria uma medida de justiça fiscal e dificilmente contestável. E esse foi aliás o argumento esgrimido pelos responsáveis pela aprovação do diploma legal em causa.
Sucede porém que, essa regalia anterior dos gerentes e administradores em sede de IRS traduzia-se, na prática, numa compensação pelo facto de não lhes estarem garantidos alguns direitos assegurados à generalidade dos trabalhadores portugueses.
Nomeadamente, os gerentes e administradores das empresas não têm direito em circunstância alguma ao subsídio de desemprego.
Ora, o governo anterior, reconhecendo que essa omissão era e é uma flagrante injustiça, tinha prometido rever a situação no sentido de, pelo menos em alguns casos bem definidos, os gestores e empresários poderem passar a aceder ao referido subsídio.
Sucede porém que, antes de se fazer aprovar qualquer mecanismo legal nesse sentido, optou-se pelo caminho oposto e decidiu agravar-se a situação fiscal desses verdadeiros portugueses de segunda.
Este é mesmo o real paradigma da forma com que os empresários e gestores – nomeadamente os das PME –, são tratados em Portugal. São iludidos de que lhes será feita justiça com promessas jamais concretizadas. E, entretanto, vão sendo lentamente espoliados dos direitos residuais que ainda lhes restavam.
Até quando teremos de aturar isto?
António Saraiva
Presidente da Direcção da AIMMAP
"

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

As lideranças europeias

No editorial da edição n.º 183 da revista “TecnoMetal”, o Presidente da Direcção da AIMMAP lamentou a aparente fraqueza das lideranças europeias, bem como, fundamentalmente, as consequências negativas que daí decorrem para a generalidade das nossas empresas.

Tendo em conta a pertinência do assunto, transcreve-se nas linhas subsequentes o citado editorial.


"Lideranças fracas

Está agora a concluir-se um ano desde que o mundo foi abalado com o surgimento abrupto de evidentes sinais de uma crise financeira global.
Essa crise converteu-se entretanto numa crise económica, sendo agora crescentes as vozes que antecipam a sua passagem para um terceiro patamar: a crise social.
Não podemos nem devemos alarmar-nos com especulações sobre o futuro. Mas seria absolutamente irresponsável que, enquanto empresários e dirigentes associativos, ignorássemos os sinais com que vamos sendo confrontados.
Ora, nesse âmbito, não só são inquietantes algumas movimentações sociais a que assistimos, como é especialmente preocupante a falta de respostas a tais problemas por parte de quem nos dirige.
As empresas portuguesas estão naturalmente integradas num espaço que corresponde um dos principais blocos políticos e económicos mundiais: a União Europeia.
Tal circunstância pode parecer à primeira vista um conforto. Porém, é bom que tenhamos consciência de que tal aparente conforto pode converter-se rapidamente num presente envenenado.
É que, conforme vamos constatando com crescente preocupação, essa potência chamada Europa encontra-se praticamente sem um rumo definido.
Ao contrário dos outros blocos com que temos de competir – nomeadamente os Estados Unidos da América, a China, o Japão ou mesmo o Brasil -, a Europa não soube desenvolver ainda uma estratégia para a condução da sua economia. E mais grave ainda, encontra-se paralisada por uma assustadora pulverização de pequenos poderes que estão obviamente muito longe de corresponder a uma liderança forte e estruturada.
Ao invés das restantes potências que têm líderes determinados e até mesmo carismáticos, a Velha Europa persiste em não saber resolver os equilíbrios internos e deixa-se manietar pela existência de 27 pequenas lideranças, hesitantes e inconsequentes, a que se somam ainda os poderes equívocos e opacos de inúmeras instituições comunitárias.
Essa diluição de poderes na Europa é uma péssima notícia para a generalidade das empresas localizadas no espaço político e económico da União Europeia.
Com efeito, sem lideranças fortes e estratégias definidas, não vão ser criadas normas que protejam os interesses das empresas aos mais diversos níveis, não vai haver criação de condições propícias ao investimento e não vai haver apoio às empresas no combate cada vez mais apertado pelos mercados globais. Numa ideia apenas: não vai haver futuro para a Europa.
Ainda estamos porém a tempo de arrepiar caminho. Há ainda tempo e condições para que os nossos pequenos chefes se entendam em torno de uma ideia de Europa para o futuro, em prol das suas economias e dos seus cidadãos.
Mas para tanto é absolutamente vital e urgente que os políticos europeus deixem de uma vez por todas de se digladiar inutilmente. E que substituam as suas tendências suicidárias por um esforço de agregação.
Bem sei que a minha voz, individualmente considerada, dificilmente chega aos castelos em que os políticos europeus vivem. Mas não será certamente por isso que deixarei de combater pela defesa dos legítimos interesses das nossas empresas. Até porque a experiência me tem vindo a ensinar que a Europa terá pelo menos um mérito. Apesar de tudo, é um espaço onde a soma das pequenas vozes pode chegar a fazer a diferença.
O Presidente da Direcção
António Saraiva"

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A excelência do sector metalúrgico e metalomecânico

Embora o sector metalúrgico e metalomecânico seja o mais relevante da indústria transformadora em Portugal, é verdade que nem sempre lhe são reconhecidos os créditos que inegavelmente lhe são devidos.

Trata-se de um problema de imagem que a Direcção da AIMMAP considera fundamental resolver.

Tal matéria foi abordada pelo Presidente da Direcção da AIMMAP no editorial da edição n.º 182 da revista “TecnoMetal”.

Considerando a pertinência do assunto, transcreve-se nas linhas subsequentes o citado editorial.

"A imagem do sector metalúrgico e metalomecânico

Como tantas vezes tem sido referido, o sector metalúrgico e metalomecânico, não obstante seja actualmente o mais importante da indústria transformadora em Portugal, não beneficia da imagem que merece, junto dos poderes públicos e da própria comunidade em geral.
Esse é um défice que tem objectivamente prejudicado as nossas empresas, nomeadamente quando se trata de distribuir incentivos públicos.
E, mais importante ainda, que tem efeitos negativos na capacidade das nossas empresas em atraírem jovens que nas mesmas queiram trabalhar.
Não faz sentido que o sector que mais emprego cria em termos líquidos, que mais investimento continua a gerar - mesmo no actual momento adverso -, e que de uma forma mais acentuada contribui para as exportações portuguesas, continue a não ser devidamente reconhecido aos mais diversos níveis.
Há muito que a AIMMAP identificou este problema de falta de notoriedade e reconhecimento do sector como um handicap significativo para o seu desenvolvimento.
Nesse sentido, tem vindo a providenciar no intuito de alterar a situação, tendo vindo a insistir nos últimos anos na divulgação das virtualidades do sector em geral e na disseminação de alguns importantes casos de sucesso.
Esse trabalho tem vindo a merecer frutos que indiciam estarmos no bom caminho. Mas é importante contudo que os nossos esforços sejam incrementados.
Assim sendo, anunciamos que, para além da realização de um estudo sobre o sector, vamos implementar algumas acções bem concretas tendo em vista a melhoria da nossa imagem colectiva.
Estamos certos de que este trabalho nos irá levar a bom porto. Mas sublinhamos que precisaremos para esse efeito do apoio das nossas empresas.
Bem sabemos que, em termos estruturais, o nosso sector é maioritariamente composto por empresas que prezam a discrição e a simplicidade.
Sendo essas virtudes evidentes, temos porém de as saber dosear. Precisamos de nos abrir mais ao exterior, sem pudores e modéstias excessivas. E temos de mostrar à sociedade de uma forma mais evidente toda a nossa excelência.
Se estas são as regras do jogo, há que saber usá-las em nosso próprio proveito.
O Presidente da Direcção
António Saraiva"

segunda-feira, 11 de maio de 2009

A qualidade das empresas do sector metalúrgico e metalomecânico

Estamos a atravessar actualmente uma crise muito séria aos mais variados níveis.

Paradoxalmente, essa crise tem acentuado a evidência de que as empresas do sector metalúrgico e metalomecânico revelam níveis de excelência e qualidade claramente superiores às da média nacional.

No editorial da última edição da “TecnoMetal”, o Presidente da Direcção da AIMMAP abordou essa matéria, tendo além disso manifestado a convicção de que as empresas do sector vão continuar a competir entre as melhores à escala global.

Considerando a importância e a acuidade dessa intervenção, publicamos nas linhas subsequentes o texto referente ao editorial em causa.

"Cada vez melhores

A crise em que vivemos remete-nos necessariamente para a sabedoria popular: a necessidade aguça o engenho.
É pois nesse sentido que gostaria uma vez mais de deixar algumas notas de incentivo às empresas do sector metalúrgico e metalomecânico.
As nossas empresas têm trilhado ao longo dos últimos anos um caminho extremamente postivo, apostando de forma crescente na qualidade e na excelência.
Muitas delas são hoje empresas altamente competitivas aos mais diversos níveis, sendo capazes de concorrer com os melhores nos mais variados mercados.
Atingiram altos padrões de qualidade, sem apoios significativos do Estado português. O que conseguiram, é fruto do seu mérito e do seu trabalho.
Se o Estado não foi capaz de as auxiliar quando a situação económica era mais favorável, dificilmente será agora capaz de o fazer quando o momento é muito mais difícil.
Pelo que, apesar dos anúncios do Governo e das parangonas na comunicação social, não seria prudente que estivessem agora à espera dos apoios do Estado.
Independentemente de eventuais medidas instrumentais que a administração pública possa ser capaz de lançar em auxílio da economia, as empresas devem estar cientes de que só o seu trabalho será susceptível de as fazer ultrapassar a crise.
Apelo pois a que continuemos a empenhar-nos em fazer bem aquilo que sempre fizemos. Que sejamos capazes de competir com os nossos concorrentes nos quatro cantos do mundo. E que, dentro das nossas possibilidades, continuemos a apostar na investigação e desenvolvimento, na propriedade industrial, na inovação, no design, na certificação de produtos ou sistemas, na formação profissional dos nossos colaboradores e, enfim, em tudo aquilo que nos possa distinguir face aos nossos concorrentes.
Retomo as minhas palavras iniciais, sublinhando que se a crise é agora uma realidade, não nos resta outro caminho que não o de continuar a procurar a excelência, encontrando nas dificuldades a nossa oportunidade de crescermos. Bem sabemos todos como é difícil esse desafio. Mas não serão seguramente as dificuldades que nos irão fazer soçobrar.
Iremos assim continuar a competir entre os melhores. E iremos seguramente, dessa forma, continuar a estar entre os melhores.
António Saraiva
Presidente da Direcção da AIMMAP"

quarta-feira, 4 de março de 2009

Entrevista ao Presidente da Direcção da AIMMAP

António Saraiva, Presidente da Direcção da AIMMAP, concedeu uma interessante entrevista à revista “TecnoMetal”, publicada na edição n.º 180.
Passa a transcrever-se a referida entrevista neste blogue, na certeza de que na mesma são abordadas matérias da maior importância para as empresas do sector metalúrgico e metalomecânico.

"TECNOMETAL ENTREVISTA ANTÓNIO SARAIVA, PRESIDENTE DA DIRECÇÃO DA AIMMAP

1. Nestes momentos conturbados da economia portuguesa, como Presidente da Direcção da AIMMAP que tipo de mensagem entende ser importante transmitir aos associados?
Desde sempre que a Direcção da AIMMAP tem vindo a apostar de uma forma reiterada naquilo a que temos chamado os factores distintivos dos produtos e das empresas, incentivando os associados a apostarem na formação profissional, na propriedade industrial, na certificação, no design ou na investigação e desenvolvimento. E desde sempre igualmente que esta Direcção tem vindo também a sublinhar a necessidade de se apostar de forma estratégica e estruturada na cooperação e na internacionalização.
Tudo isto sempre assim foi mesmo quando a situação da economia era mais favorável. Para o atestar bastará aliás reler o nosso programa de candidatura aos órgãos sociais da AIMMAP ou os sucessivos planos de actividades que anualmente temos vindo a submeter à apreciação dos nossos sócios.
Actualmente, essas apostas estratégicas da AIMMAP continuam a fazer todo o sentido. Aliás, até diria que fazem cada vez mais sentido. Pelo que, a Direcção da AIMMAP insiste e continuará a insistir no mesmo tipo de discurso, estimulando as suas empresas a serem cada vez melhores e cada vez mais competitivas. Só sendo pelo menos tão boas como as melhores é que as nossas empresas poderão resistir e singrar.

2. Recentemente, num programa televisivo, defendeu, em termos filosóficos, iniciativas como a que foi levada a efeito sob o lema “Compre o que é nosso”, como instrumento de combate à crise na economia nacional. Quer esclarecer um pouco mais essa sua posição?
Em primeiro lugar quero sublinhar que não está subjacente a essa minha posição qualquer lógica proteccionista. Aliás, o Estado português seria verdadeiramente suicida se optasse deliberadamente por esse tipo de política.
O que defendo, que é substancialmente diferente, é que as empresas portuguesas em particular e os consumidores nacionais em geral apostem naquilo que poderemos qualificar como círculos de proximidade. A nossa pequena dimensão como país também nos permite retirar daí vantagens. E uma dessas vantagens é seguramente, para os agentes económicos, a da proximidade. Seríamos pois irresponsáveis se não a tentássemos aproveitar.
Sublinho ainda que a aposta em iniciativas de estímulo ao consumo de produtos portugueses deve ser encarada sem preconceitos e da mesma forma com que se encara a implementação de estratégias de internacionalização.
Em todo o caso, seja no mercado português, seja nos mercados globais, o cerne da questão está na ideia a que fiz referência na resposta à pergunta anterior: temos de saber fazer tão bem como os melhores. E é nesse sentido que deveremos trabalhar.

3. Qual o papel desejável do Estado português como forma de auxiliar as empresas nesta actual conjuntura negativa?
Apetece-me dizer que já faria muito se deixasse de atrapalhar. Por exemplo, pagando a totalidade da sua dívida aos respectivos fornecedores, a qual ascende a mais de 2.000 milhões de euros; reduzindo os prazos médios de pagamento das suas dívidas; sancionando os responsáveis políticos – centrais ou autarcas -, que tardam anos em pagar o que devem; restituindo o IVA aos contribuintes com celeridade; alterando o regime do pagamento do IVA por forma a que o mesmo seja devido no momento do recebimento e não no da facturação; ou agilizando e racionalizando o QREN.
Para além disso, tem de cumprir as suas obrigações estruturantes – no que se refere às empresas essencialmente em sede de Educação e Justiça -, e tem de ser um bom regulador aos mais diversos níveis.
Infelizmente, o Estado português não tem sido capaz de cumprir as suas atribuições mesmo quando a economia está melhor. Pelo que muito dificilmente poderemos acreditar que agora será capaz de o fazer em condições muito mais difíceis.
Os apoios do Estado são importantes e por vezes fundamentais. Mas estou convencido de que apenas poderão ser verdadeiramente competitivas as empresas que se libertarem de qualquer espécie de dependência do Estado e dos poderes públicos.

4. Voltando às empresas: os despedimentos são uma necessidade ou podem ser evitados com o recurso a soluções alternativas?
Neste momento difícil não há verdades absolutas nem medidas descartáveis.
Os despedimentos são previstos e permitidos por lei, podendo nalguns casos ser uma medida a adoptar pelas empresas como forma de as ajudar a enfrentar as dificuldades.
Mas obviamente que há alternativas que, se viáveis, são sempre preferíveis a soluções tão drásticas e radicais como os despedimentos. A conversão de contratos a tempo inteiro em contratos a tempo parcial, o recurso ao “lay-off” ou a adesão a algumas medidas excepcionais de combate ao desemprego, são seguramente opções menos dolorosas para todos os envolvidos. Mas infelizmente nem sempre será possível evitar o recurso aos despedimentos.
Uma coisa é certa em todo o caso. A esmagadora maioria das empresas apenas avança para despedimentos quando não vê alternativas viáveis. Só mesmo em último recurso.

5. Alguns responsáveis sindicais têm abordado essa questão na perspectiva exactamente oposta, afirmando que há empresas que estão a aproveitar-se da crise para proceder a despedimentos desnecessários. Quer comentar?
Trata-se de uma afirmação gratuita e sem qualquer fundamento. Admito que existam casos pontuais em que isso possa ter acontecido. Mas trata-se aí de casos residuais e sem qualquer expressão.
Tal como já o referi várias vezes, não aceito minimamente que se lance esse anátema sobre as empresas em geral por causa de eventuais comportamentos de uma minoria muito residual.
As empresas não gostam nem querem despedir. Pelo contrário, sabem que só com os seus trabalhadores poderão ultrapassar a crise. Pelo que, naturalmente, não os querem perder. E tudo fazem para evitar perdê-los.
Quando os responsáveis sindicais sugerem o contrário disto revelam um inquietante desconhecimento a respeito do funcionamento das empresas portuguesas.

6. Entretanto, independentemente da intervenção de cariz mais político da Direcção da AIMMAP, com que tipo de apoios podem contar as empresas do sector, dos serviços da associação para as ajudar a orientar-se neste momento mais difícil?
Esta associação tem desenvolvido um trabalho que, em termos genéricos, sem falsas modéstias, tenho de qualificar como notável. Temos dado provas aos nossos associados de que os sabemos ajudar em todos os momentos no que se refere aos mais variados assuntos e problemas. No ambiente, na legislação laboral, na propriedade industrial, na formação profissional na investigação e desenvolvimento, na certificação, na energia, na internacionalização ou na cooperação, a AIMMAP tem levado a efeito iniciativas da maior relevância, informando as empresas, protegendo o sector e reclamando dos poderes públicos as intervenções adequadas.
Ao contrário do Estado, nós temos sabido dar resposta às necessidades daqueles que representamos em todos os momentos. Nos bons e nos maus momentos.
As dificuldades não nos assustam. Pelo contrário, estimulam-nos a ser criativos e assertivos na procura das melhores soluções para as nossas empresas, aos mais diversos níveis.
É nas alturas mais difíceis que as associações devem mostrar o que valem. Nesse sentido, para além daquela que é a nossa actividade normal, estamos neste momento a acompanhar com maior proximidade e detalhe as medidas que sejam susceptíveis de contribuir para mitigar os efeitos da crise. Bons exemplos disso são os seminários e sessões de esclarecimento levados a efeito sobre o novo Código do Trabalho, sobre o lay-off, sobre as medidas excepcionais de apoio ao emprego ou sobre outras iniciativas e medidas afins. Mas de igual modo estamos a trabalhar no sentido de procurar identificar boas causas em que as empresas se possam envolver, como por exemplo a internacionalização, a investigação e desenvolvimento, a propriedade industrial, a cooperação ou a formação profissional. É exactamente nesse âmbito que, ainda muito recentemente, nos envolvemos na criação de três novas entidades: a PRODUTECH, tendo em vista a criação de um pólo de competitividade no agregado dos produtores de tecnologias; a AFIMACC tendo em vista o reforço da cooperação entre as empresas das fileiras dos materiais de construção e da casa; e o ARBITRARE, no sentido de promover a criação de meios alternativos de resolução de conflitos no seio da propriedade industrial.
Acrescento que o bom trabalho que a AIMMAP realiza é complementado pelo igualmente bom trabalho levado a efeito por outras entidades de que a AIMMAP é sócia fundadora e nas quais participa activamente nos respectivos órgãos sociais, como são os casos do CATIM, do CENFIM; da AFTEM, da CERTIF, da FELUGA, do INEGI, da CIP ou da PRODUTECH, entre várias outras.
Gostaria ainda de aproveitar esta oportunidade para divulgar que a AIMMAP irá realizar um conjunto de seminários para ajudar a orientar os seus associados, sob o lema “Compreender a crise, encontrar soluções.” Vamos nesse âmbito recorrer à colaboração de personalidades de referência na sociedade civil portuguesa, que nos podem ajudar a reflectir neste domínio. E posso inclusivamente anunciar que o primeiro seminário terá lugar no final de Março próximo, com a intervenção de Joaquim Aguiar, que é seguramente uma das pessoas que em Portugal melhor pensa a economia, a política e a sociedade.

7. Sendo esta entrevista dada à TecnoMetal, não poderíamos deixar de lhe pedir que comente o facto de esta revista completar neste ano de 2009 o seu trigésimo aniversário.
É uma honra muito grande para mim ter a oportunidade de desempenhar as funções de Presidente da Direcção da AIMMAP num momento em que esta sua tão prestigiada revista completa um aniversário tão marcante.
Recordo que estes 30 anos de publicação da TecnoMetal nunca sofreram quaisquer interrupções. É algo de notável e pouco frequente numa revista técnica e científica.
Aliás, perdoe-se-nos a imodéstia, é absolutamente justo que esta nossa revista seja, no seu segmento editorial, não só a líder de audiências como também a mais prestigiada publicação.
Vamos pois comemorar com o maior gosto e empenho esta efeméride através da realização de um conjunto de iniciativas que culminarão na organização do Fórum TecnoMetal, no próximo dia 13 de Março, em que a Inovação será o tema central.
Quem nos conhece melhor, sabe que será com o maior orgulho que iremos honrar este passado distinto da revista e daqueles que contribuíram para o sucesso que hoje constatamos. Mas sabe igualmente que, com igual ou maior empenho ainda, estamos sinceramente empenhados em criar condições para que o futuro da revista seja cada vez melhor. É precisamente para isso que estamos a trabalhar actualmente. E como em tudo o que aqui fazemos na AIMMAP, com a profunda convicção de que vamos conseguir ter sucesso."